É como se a alma, exausta de excessos, começasse a escolher com mais calma.
Aquilo que antes era imprescindível agora soa supérfluo.
A bagagem diminui. Ficam apenas as lembranças que abraçam por dentro, os nomes que resistem ao tempo, os sentimentos que, mesmo mudos, nunca cessaram de falar.
A opinião dos outros — que já foi bússola — perde o peso.
Porque enfim se compreende: aquilo que os outros pensam, pertence a eles.
Mesmo quando falam de nós, não sabem do que falam. E nada, absolutamente nada, muda por isso.
De repente, o que tem valor não é o que reluz, mas o que repousa em paz dentro da gente.
Passamos a amar diferente as mesmas verdades de sempre.
A abrir mão das certezas — porque o tempo nos ensina que toda certeza é breve.
E curiosamente, isso deixa de ser problema.
O que importa é a simplicidade de estar presente.
O hoje se resume no agora — e tudo o que vem depois é suposição.
Cessa o julgamento.
Não há bem nem mal absolutos — só escolhas. Só histórias. Só vidas sendo vividas como cada um consegue.
O improvável torna-se familiar.
Os extremos se dissolvem em meio-tons.
Nada mais é exato — e tudo é instável demais para que a gente queira controlar.
O reverso se desmancha.
E o que permanece é o anseio por paz.
Por tranquilidade. Por leveza. Por fazer, simplesmente, o que alegra o coração — sem tanta explicação.
É fé. E basta.
De repente, a saudade deixa de ser palavra e vira ausência pulsante.
E descobrimos que o coração tem voz — e essa voz não se cala diante da razão.
Tentamos, em vão, explicar o que não é compreensível a ninguém além de nós.
E nesse esforço, percebemos o valor real da verdade:
ser íntegro, ser limpo, ser inteiro.
Com os outros, com o mundo — mas antes de tudo, consigo mesmo.
E então, como num sussurro do Alto, compreendemos:
os planos que traçamos são nossos.
Mas as escolhas que nos transformam...
essas são de Deus.

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